terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Ressurreição: A polifonia anárquica de um anti-penalista demolidor do Estado






Livro: RESSURREIÇÃO
Autor: TOLSTOI, LEON
Tradutor: FIGUEIREDO, RUBENS
Idioma: PORTUGUES
Editora: COSAC NAIFY
Ano de Lançamento: 2010
Número de páginas: 431







Antes mesmo de terminar a leitura de Ressurreição, de Liev Tolstói, tive a impressão incontestável de que se tratava de um dos melhores livros que já li. E não apenas isso, um dos livros que mais me tocou. Não é só uma obra primorosa, ao estilo perfeccionista do autor, é um livro que ultrapassa o lugar comum da literatura, é um livro que faz pensar nosso caminho enquanto seres humanos. Não é um simples livro com frases bonitas postáveis no Facebook, é uma obra que nos atinge no amango de nosso ser. E não apenas isso, não atinge apenas nós enquanto indivíduos, mas as estruturas sociais de desigualdade, nada fica de pé ao final das páginas do romance. Tudo, desde as relações (falsamente) amorosas, até os tribunais, tudo parece um tanto brutal depois da leitura do livro.

O belo do livro, ao menos ao meu ver, é como o autor zomba dos poderosos e de suas relações. Um dos momentos mais belos do livro, é em uma passagem durante uma Missa na prisão, o discurso do Padre soa como auto-denuncia, todo o contexto anterior e posterior do livro deixam isso claro, as próprias práticas na narrativa trazida levam a essa conclusão; a Missa como sempre deve ser celebrada, o discurso religioso piedoso se torna nas mãos habilidosas do narrador uma auto-denuncia explícita, no caso, do afastamento total dos mandamentos de Jesus, e da participação da Igreja (Ortodoxa) na legitimação do poder dominante, a cena que lembra muito a cena final de Leviatã filme Russo premiadíssimo, e provável vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro onde também o narrador com habilidade consegue colocar a denuncia a Igreja e as suas relações de poder politico na boca do próprio Padre que legitima tais ações, isso é fantástico.

Longe de dizer que exista algo universal, ou seja, que a critica de Tolstói se aplique irrestritamente a qualquer lugar do mundo em qualquer época, a critica do autor nos ajuda a entender algumas coisas. Existem diversas temáticas que atravessam o livro, e que muitas vezes se entrega a uma "polifonia" incomum e muito interessante. Quero ressaltar aqui duas questões, dentre essas várias. Primeiro a "polifonia" e uma narrativa que as vezes foge de personagens e esquemas prontos, e estruturalizantes. Segundo, a sua critica, ao meu ver, principal que se inicia denunciando a justiça e termina por se dirigir a toda uma estrutura estatal.

Apesar do personagem principal ser um tipico aristocrata, muito narrado nas literaturas tradicionais, Nekhliúdov não é um personagem óbvio, o seu abandono e progressivo asco as práticas aristocráticas não segue um caminho linear, existe aqui uma polifonia interna, são várias vozes que compõem o personagem, o que o deixa mais complexo, os vários pensamentos que povoam seu destino se entrelaçam e aos poucos vão forjando sua identidade. 

Outra coisa bastante interessante no livro, são os diversos personagens, sobretudo uma questão que a mim saltou aos olhos, os diversos personagens que são parte da aristocracia são narrados pelo narrador universal desde fora, mas o mesmo termina por expor seus conflitos, diante de sua pertença a classe dominante o que sempre acaba por ser uma denuncia quando não por vezes uma auto-denuncia em seus discursos. Porém, alguns dos personagens pobres e marginalizados do livro, ganham voz, e se afirmam e constroem suas identidades a partir de suas próprias narrativas. O caso que mais me chamou atenção, nesse sentido, foi o do velho que se nega a ter um nome, ou documentos, e faz afirmações de cunho anarquista, porém não um anarquismo teórico, mas existencial, ele que está rumo a uma prisão na Sibéria afirma-se  em sua identidade que não é aquela que a Justiça ou o Estado querem dele, e ganha uma voz potente e em duas ocasiões se torna centro da narrativa. Dessa forma me parece, que Tolstói busca, em certos momentos, descentralizar da aristocracia a narrativa. 

Ressurreição é, sem duvida, um monumento contra o Estado. Uma denuncia potente contra as estruturas que perpetuam a injustiça, a tese principal do autor, ao que parece, é que o Estado é o grande tirano. O autor coloca os "bandidos", "ladrões" e assassinos como muito menos tirânicos que o Estado, e muito mais propensos a misericórdia do que esse, por dois motivos, o funcionários do Estado quando matam, roubam e oprimem, o fazem em nome da Lei, o fazem não só escorados por um aparelho legitimador, mas também são eximidos de suas culpas, quando o Estado mata ninguém é culpado, estão todos ali simplesmente no exercício de suas funções. 


Mas essa denuncia não vem acompanhada de uma demonização dos agentes do Estado, uma pessoalização de suas culpas, e acho que esse é o grande trunfo do do escritor, eles não matam simplesmente porque são pessoas cruéis, matam porque estão forçados e legitimados a faze-lo, não é uma simples critica a estrutura, há é claro a participação desses sujeitos na construção de suas funções, porém o autor é categórico, em demonstrar que se não existe o Estado, tal como ele é, tais pessoas talvez não fossem homicidas e opressoras. Os guardas, diretores, e agentes da justiça estão até certo ponto como reféns das lógicas de legitimação do poder que eles mesmos querem para si.


Justamente por mostrar as contradições inerentes aos diversos pertencimentos, o livro é extraordinário, ele não romantiza os oposicionistas nem torna vilões os agentes do Estado, todos estão sujeitos a contradições, não há identidades fáceis, simples e moldadas por estruturas prontas, o que há são contradições inerentes a estruturas de poder humano que se moldam nas constantes práticas dos sujeitos. 

Por fim, Ressurreição não se sacrifica por seu conteúdo "militante" é literatura da melhor qualidade, talvez, justamente por amplificar as vozes marginalizadas e denunciar as estruturas de poder sem esquecer das contradições humanas, talvez seja por vezes moralizador, mas sua moral, está sobretudo identificada com as lutas do povo, e com a busca de um aniquilamento das estruturas de poder, ainda que seja só na narrativa e (possivelmente) em nossas mentes. É finalmente, um manifesto anti-penalista, a pena aqui não tem sentido, pelo simples fato de todos, sem exceção, serem também culpados, justamente por estarem sujeitos as mesmas contradições, tanto aqueles que são julgados quanto os julgadores, e também(mas não só) por isso penalizar nunca resolveu, nem nunca resolverá. O Livro de Tolstói vale a pena, por esses motivos e por outros, de caráter literário e militante que quando lerem descobrirão por vocês mesmos.

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