quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015
Whiplash: O (não)lugar-comum Hollywoodiano, a esquerda brasileira, e a fragilidade dos impérios
Confesso que assisti Whiplash quase que contrariado, havia lido um texto sobre o filme que havia me deixado desanimado, talvez tenha insistido pela premiação que o filme ganhou de melhor ator coadjuvante com J.K.Simmons. De qualquer forma assisti o filme, e a principio, o fatídico texto, e os meus receios sobre o filme foram se confirmando, embora de maneira diversa. O filme, de fato, não tem um grande roteiro, se comparado com os seus concorrentes ao Oscar, é uma história de certa forma lugar-comum, porém o que chama a atenção é a atuação, que junto com alguns aspectos do filme, conseguem não só redimir o filme como tornar um excelente filme, que pode conduzir a debates extremamente fecundos.
O texto ao qual me referi é do Cineasta Eduardo Escorel pro seu blog no site da Revista Piaui, embora pouco ou nada conheça do seu trabalho, sua critica, talvez por ter sido bem escrita me pareceu convincente. Diz que o Filme é um amontoado de lugares comuns, e que distorce o jazz, e acaba por se distanciar do estilo de filmes sobre jazz e acaba por se aproximar dos filmes esportivos, de superação. Talvez em parte o critico esteja certo, mas na minha visão existem outros aspectos do filme sobre o qual ele acaba passando por cima, no seu anseio que parece irremediável de criticar a qualquer custo essa produção "recheada de formulas" que é o cinema americano.
Para Escorel, o filme não passa de um elogio ao sadismo e a humilhação. Talvez, e apenas talvez, tenhamos visto filmes diferentes, ou mesmo tenhamos perspectivas diferentes sobre o cinema, já que ele o tem como um trabalho e eu apenas por diversão, entretenimento e forma de expressão artística e/ou social.
Acho que uma das principais questões, que quase sempre me chamam a atenção ao ler as criticas de filmes é primeiro uma vontade que me parece quase que missão ou função do critico de cinema que é criticar os filmes, que para eles representam apenas uma reprodução do lugar comum ao qual todos, ou quase todos os diretores de Hollywood estão submetidos; a critica pela critica. Tal como no texto do autor citado, basta dizer que repete os lugares comuns, nem precisa dizer como, nem porque isso é ruim. O lugar comum, nesse sentido é necessariamente um lugar não criativo, de impossibilidade de reprodução da receita pronta do cinema americano. E justamente ai, é onde a narrativa do critico acaba por trair a si mesma.
Tal como parte da militância da esquerda brasileira, que só vê a "grande mídia" como reprodutora de valores e padrões das elites, e justamente por isso não consegue ver as ambiguidades, e contra-discursos contidos nas produções da mesma, vê tudo como uma grande coisa uniforme, e qualquer utilização de recursos parecidos é a mesma coisa, uma boa parte da critica de cinema, parece reproduzir um lugar-comum, que justamente reside na critica ao lugar-comum da produção hollywoodiana, qualquer utilização de componentes comuns narrativos, já é automaticamente colocado junto das demais produções como o mesmo lixo de repetição de clichês. Embora existam, algumas diretrizes, tanto no jornalismo das grandes corporações brasileiras quanto nos grandes estúdios de cinema americano isso não impede, que o mesmo discurso, o mesmo "lugar-comum" seja muitas vezes usado para subverter o lugar-comum e o status quo dominante; existem lógicas próprias e redes de relações internas e externas, que estão para além de qualquer ideologia dessas grandes corporações, existem formas criativas e criação de dissidências internas que sucumbem as nossas análises estáticas, a realidade é sempre dinâmica, as interpretações e discursos produzidos não são únicos.
Partindo dessa perspectiva, vejo Whiplash justamente nesse lugar que não é necessariamente de reprodução do discurso comum, não é, tal como Eduardo Escorel advoga, uma repetição de clichês onde o mestre ensina ao aluno, e o mesmo aceita com submissão, não é simplesmente uma história de superação de um garoto que faz de tudo para ser um dos melhores, definitivamente, apesar de usar os mesmos recursos, não é um filme que se inscreve na lista de filmes de mestres sádicos, e de finais triunfantes. Boa parte dos filmes que assim o são, ensinam a submissão e ao final mestres e pupilos acabam por triunfar juntos. Mesmo que haja um drama como pano de fundo, o que se sobrepõe a essas narrativas é essa relação de poder, que sempre é conduzida pelo mestre, que mesmo que em algum momento perca o controle, ao final recupera as rédeas da sua história e da história do seus comandados e os conduz ao triunfo.
Whiplash talvez repita todo esse jogo, até o final, quando exageradamente se desprende dessas narrativas convencionais, quando na cena final de maneira memorável, o personagem principal, mostra porque seu mestre é coadjuvante em sua história, que termina aberta, e não fechada como nos filmes dessa categoria de mestres que ensinam sadicamente aos alunos. O personagem principal, retira das mãos do mestre o controle, não é o mestre que o conduz ao sucesso, a excelência, o mesmo no máximo conseguiu conduzir o melhor dos seus ao suicídio, o espanto do seu mestre, não é um espanto de ter alcançado seu objetivo, mas de ver seu poder subvertido, diante do seu espetáculo de poder e sadismo. A cena final do filme é um elogio a subversão das relações de poder entre mestre e aluno, o lugar de poder não é afirmado, mas desestabilizado, quem dita para o mestre o que deve ser feito é quem deveria apenas reproduzir a sujeição proposta desde o inicio.
Talvez um dia, tanto os críticos de cinema quanto a esquerda brasileira, percebam que a grande mídia e as grandes corporações de cinema não são feitos por máquinas, mas por pessoas que constroem suas identidades as vezes a despeito das ideologias massificadoras, e que não só é possível como útil amplificar vozes dissonantes que falam desde lugares de poder distintos dos nossos. Italo Calvino em seu indescritível e assustador livro Cidades Invisíveis já nos ensinou que todo império, por ser grande é frágil e fragmentado, e se sustenta unicamente na narrativa que o coloca como único e imponente, ao que me parece, tanto o livro quanto a missão daqueles que se opõem aos grandes impérios é demonstrar que suas narrativas de unidade e de poder não passam de falácia, pois no seio do seu poder o dissenso e a contradição demonstram sua fragilidade inerente.
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