Livro : Jesus e o império : O reino de Deus e a nova desordem mundial
Autor: Richard A. Horsley
Editora : PAULUS
Número de Páginas: 160
Jesus é de fato uma das figuras mais emblemáticas da história, e sobre isso não há o que contestar, sua existência fatual ou não, a realidade divina por trás do profeta galileu. Não por menos, o debate em torno do seu nome, da sua história e de seus feitos, é algo que se renova. Discutir, teorizar e escrever sobre Jesus é sempre uma tarefa árdua, e que necessita um tanto de criatividade, pois, diante do tanto que foi dito, por tantos e tão distintos pensadores, pesquisadores e religiosos, que ao fim parece sobrar pouco espaço para a inovação, vemos livros e mais livros que parecem repetir as mesmas receitas, com palavras diferentes, talvez utilizando dois conceitos distintos. Mas de fato, ao menos a literatura sobre o assunto que tive acesso, o Livro de Richard Horsley Jesus e o Império: O Reino de Deus e a nova desordem mundial é um dos mais inovadores. Coloco-o ao lado da simplicidade assustadoramente grandiosa do Livro de José Comblin Jesus Cristo.
Diante de tal figura emblemática, muitas são as abordagens, Horsley, busca colocar Jesus em contraste com o Império, e não só o Império Romano, mas também diante do Império Estadunidense que foi construído sob as bases do Cristianismo. Tal abordagem não é inovadora em si, muitos teólogos, filósofos e cientistas sociais, já haviam feito essa abordagem sobre Jesus, ressalto aqui a abordagem das teologias produzidas no terceiro mundo, tal como a teologia da libertação na América Latina, que foi ( e ainda é) muito fecunda não só em uma mudança teológica mas em uma mudança concreta das realidades latino americanas. O Jesus, dos seguidores dessa vertente teológica, era anti-imperialista, e justamente essa postura os animavam diante das lutas politicas concretas com uma influência marcadamente e predominantemente marxista. O debate em torno da despolitização de Jesus como instrumento de manutenção do status quo dominante, também não é a inovação do livro, tal debate já vem sendo feito a décadas, nos círculos teológicos Latino Americanos, ao menos desde a década de 60.
Porém, o debate que o autor introduz, é um debate muito fecundo, sobre a natureza do império americano, e comparação com o império Romano e tal debate é feito desde dentro do império, é portanto uma critica anti-imperial feita dentro dos contornos do mesmo, o que, ao menos a mim, a torna interessante. E apesar de faze-lo bem, o texto é bom em colocar pistas, mais do que dar respostas, as notas e referências são um caminho a parte. é por fim, a partir do segundo e terceiro capitulo, que o livro mostra o seu verdadeiro vigor. Após criticar as perspectivas religiosas, o que até aqui é lugar comum, o autor começa a criticar as perspectivas histórico-criticas, como por exemplo os estudos do "Jesus Histórico", que para ele, cometem o erro de individualizar passagens da vida de Jesus escritas nos evangelhos, além de não contextualizar num sentido mais amplo, as falas de Jesus, desconsideram segundo Horsley seus interlocutores e as técnicas discursivas do contexto especifico.
Dessa forma o autor começa com o debate do contexto histórico, mas para isso, mobiliza conceitos das ciências sociais, interessantíssimos, como de "Grande e Pequena Tradição" do Antropólogo e Cientista Político James C. Scott. A partir da discussão conceitual, Horsley desmonta a construção mais convencional, que parece imperar sem muito debate, de um judaísmo único e uniforme; fazendo sempre referência aos micro e macro conflitos que a Palestina da época de Jesus estava submetida, o autor, pauta seu argumento na existência de várias ramificações, por questões micro-identitárias - como os camponeses galileus que tinham sua própria tradição(pequena tradição) que se opunha a tradição dos sacerdotes(Grande tradição) - e de poder imperial. Fazendo referência a diversos estudos, sobre a história da Palestina dos tempos antigos, e dos conflitos intra-judaicos, o autor costura uma perspectiva de vários judaísmos e de um povo fragmentado, com micro e macro disputas de discurso, e de lugares de poder.
Essa primeira incursão pela história Palestina e de conflitos da região é importante, porque além de mostrar os vários grupos, o autor os coloca em relação ao império e demonstra como alguns tem aproximação e até mesmo uma relação de sujeição explicita ao Império Romano, outros grupos se colocam em pleno contraste, sobretudo grupos que faziam parte da pequena tradição, ou seja grupos que não detinham a hegemonia do judaísmo, que estavam, em sua maioria, a margem do templo e das práticas religiosas e politicas daqueles que diziam e faziam o judaísmo "oficial". O Templo inclusive, não era um ponto comum entre essas diversas ramificações das micro-disputas. Algumas tradições, como a dos galileus, por motivos histórico-geográficos de dominação, estavam em oposição direta ao Templo.
Nesse contexto, ramificado, e controverso o autor insere Jesus, e aqui, não como um representante do Judaísmo "Oficial" mas ao contrário, como um representante da pequena tradição popular, e uma tradição especifica, a dos camponeses galileus, com suas especificidades. Para Horsley, não há como ler o "Jesus histórico", sem levar em consideração que ele falava a partir de um lugar especifico que estava a margem das instituições oficiais, nem que seu discurso partia de um lugar especifico para interlocutores específicos partindo de performances e práticas discursivas próprias, para isso ele utiliza um método que chama de Perspectiva histórico-relacional. Para seu estudo ele parte de duas fontes históricas principais dos discursos de Jesus, o Livro de Marcos e da Fonte Q, que são segundo o autor as fontes mais confiáveis na pesquisa histórica sobre o tema.
Jesus,para o autor, não era um líder religioso judaico, nesse sentido, não se opunha só aos equívocos religiosos. justamente porque todo o equivoco religioso, na verdade, era um problema politico. Partindo da tradição profética de oposição àqueles que querem monopolizar o poder, Jesus fala a partir das margens do império pronunciando em alta voz um discurso profético contra o império Romano e consequentemente contra seus aliados entre os judeus, não por menos morreu na Cruz, castigo designado, não a lideres religiosos, mas a lideres que mobilizavam politicamente seus seguidores contra o império e seu aparato de poder.
Outro ponto inovador, é que Richard Horsley, não nega a dimensão das curas e expulsão de demônios, para ele, os narradores de Marcos e Q, realmente acreditavam nas curas de Jesus, qualquer outra leitura é uma tentativa de importar lentes modernas para ler o mundo antigo. O potencial taumatúrgico do Profeta Jesus, era uma realidade para seus interlocutores. Além disso, Horsley coloca em termos de performance os discursos de Jesus, não como um texto sacerdotal, da tradição dos Templo, mas como um discurso performático com a intenção de atingir principalmente seus interlocutores. Os milagres e exorcismos praticados por Jesus, faziam parte dessa performance, que transmitia várias mensagens para seus interlocutores, tais como referências de qual tradição a partir da qual ele falava, além de confrontações explicitas(para os seus interlocutores) ao império, e nisso o autor coloca alguns dos exorcismos, não como uma cura individual, mas como um anuncio, da ação direta de Deus contra o Império, ao expulsar demônios Jesus estava anunciando a a vitória de Deus contra o império Romano.
Por fim o autor demonstra que a missão de Jesus é uma busca por renovar a aliança, partindo de comunidades locais, e de alguma forma, a partir da Aliança reafirmar os valores do Deus libertador, e a partir deles as relações justas e fraternas que estão na sua proposta "original". Há com certeza, muito a se discutir, sobre o texto, mas não há como negar, que a perspectiva histórico-relacional, da um passo além na busca por compreensão das ações e palavras de Jesus. Também deve ser ressaltada a interdisciplinaridade da pesquisa do autor, que não fica confinado a uma metodologia ou perspectiva. Além de buscar, para além da abordagem marxista, uma critica ao Império, que ao final se transforma em uma critica ao império Estadunidense e uma chamada ao que se dizem seguidores de Jesus, a reavaliarem sua perspectiva sobre o império. Ele ainda da voz, as diversas tradições, que atravessam a identidade de Jesus, que foram e ainda são silenciadas, tenta ver em Jesus, e na sua história uma voz profética construída por várias outras vozes, que estão sempre contra o império. Muito poderia ser dito ainda, mas recomendo que leia o livro, que, como disse, é fecundo em dar novas pistas, ao invés de respostas prontas e finais.
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